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(Mas de maneira relativa você está mais velho) | ||||
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Livro Virtual
O Que você vê aqui não é um blog, e sim um livro virtual. Por ser um teste, iniciamos com um conto. A ideia é que seja lido, divulgado, e comentado para gerar interatividade entre o autor e seus leitores.
O Conto
Esta é a história resumida de três gerações da família Vitianni. Uma reflexão sobre o que fazemos com o nosso tempo. Afinal, muitas vezes, a forma como a vida nos trata reflete a forma como tratamos a vida.
O Autor
A. Gil escreveu este conto à toque de caixa para participar de um concurso que não venceu. Agora, ele divide com todos este texto que só recebeu boas críticas (ao menos até agora). A. Gil também escreve quase que diariamente no Blog 100Crise. Confira!!! |
Julho de 2005
Ticking away the moments that make up a dull day
(Deixando passar os momentos que fazem um dia chato) You fritter and waste the hours in an off-hand way
(Você fragmenta e desperdiça as horas num caminho sem volta) Kicking around in some piece of ground in your home town
(Vendo o tempo passar num pedaço de chão em sua terra natal) Waiting for someone or something to show you the way
(Esperando alguém ou alguma coisa que te mostre o caminho) A despeito da voz poderosa e tranqüila de Roger Waters que saía pelos fones de ouvido, os pensamentos dele não eram dirigidos para nenhum dos versos da canção. Até porque ele não entendia, nem o sentido e nem a tradução. Os cinco longos anos de curso de inglês serviram para iniciar algumas amizades e até alguns namoros. Ou ficadas como ele mesmo costumava dizer, mas nunca o fizeram falar mais do que o trivial. Conhecia o verbo to be, o to have, até alguns substantivos, mas nunca precisara formular uma frase complexa em língua estrangeira. Sete anos antes, quando viajou ao exterior pela primeira vez não sentiu nenhuma necessidade de saber Inglês. Os guias, e seus colegas que foram com ele na excursão a Disneylândia eram todos brasileiros. Nas poucas vezes que precisou de algo no hotel seu avô resolvera tudo. Ele lembrou de como havia ficado irritado ao saber que seu avô o acompanharia na viagem. Afinal a maior parte dos seus amigos iria sozinha ou com os pais. Roger Waters insistia nos fones de ouvido: Tired of lying in the sunshine / Stay at home and watch the rain
(cansado de ficar deitado ao sol / e de ficar em casa olhando a chuva) You´re young and life is long /And there´s time to kill today
(Você é jovem e a vida é longa / E hoje você tem tempo de sobra) And then one day you´ll find / Ten years you got behind you
(Aí um dia você descobre / Que dez anos já ficaram para trás) No one told you when to run / You missed the starting gun
(Ninguém te disse quando correr / Você perdeu o tiro de largada) Seu olhar se perdia com a beleza dos raios de sol refletidos sobre as águas da lagoa Rodrigo de Freitas. Mas, assim como não entendia a canção, ele também não pensava no sol. Havia pensado no sol pela manhã. Acordou e pegou sua prancha... E logo depois foi aquela discussão. Porque não podia pegar ondas naquele dia? Só porque alguém está no hospital o mundo tem de parar? Ele não entendia o que se passava na cabeça da mãe. Mas, em sua opinião, a mãe é que fazia toda a questão de não entendê-lo. Meia hora depois quando o telefone tocou e sua mãe atendeu, ele percebeu que realmente não surfaria naquele dia. Um misto de raiva e alegria o fizeram exibir um sorriso no canto da boca. A raiva era imediata. Mais uma vez aquele velho atrapalhara os planos do dia. A alegria era uma visão de futuro: pela última vez o velho atrapalharia os planos do dia. Olhou para a poltrona de couro no canto da sala, em cujos braços repousavam os óculos de leitura do avô. Ao lado da poltrona estava a bengala. Nem um nem outro seriam mais usados. Voltou ao quarto, deixou a prancha e pegou o disk-man. Nem se deu ao trabalho de trocar o CD. Ouviria qualquer coisa. No caso, Pink Floyd. Andou o dia inteiro. Caminhou na praia, almoçou um sanduíche natural e tomou um mate misturado com suco de limão. Encontrou amigos. Conversou com eles. Aos que perguntavam pelo estado de saúde de seu avô ele dizia que tudo ia ficar bem e desconversava. Ia embora. Andou tanto naquele dia que, ouvindo o CD pela sexta ou sétima vez chegou à Lagoa e sentou-se para pensar em nada. Roger Waters não desistia: And you run and you run
(E você corre e corre) To catch up with the sun but it´s sinking
(Para acompanhar o sol mas ele está afundando) And racing around to come up behind you again
(Ele tem pressa para aparecer atrás de você de novo) And the sun is the same in a relative way
(E o Sol é o mesmo, de maneira relativa) But you´re older
(Você é que está mais velho) Shorter of breath and one day closer to death
(Com a respiração mais curta e um dia mais perto da morte) O fim de tarde havia escurecido o céu. Começava a chover uma chuva fina, fina. Ele levantou-se desligou o aparelho. Pensou que àquela hora tudo já teria terminado. Ele já tinha ouvido falar que quando as pessoas morrem com a doença que seu avô carregava, tentavam enterrar o mais cedo o possível. Voltaria para casa e tentaria disfarçar para a mãe aquele misto de raiva e alegria que o acompanhara durante todo o dia. 22Out2007 | ( 4 ) comentários Março de 1920
As agruras da Primeira Grande Guerra ainda eram sentidas em boa parte da Europa e por isso, e por muitas outras coisas, muitas pessoas buscavam novos lugares para iniciar uma vida nova. A América do Sul foi escolhida por várias famílias italianas como esse lugar onde sonhos se realizariam. E assim foi com a família Vitiani. Enrico Vitiani e sua esposa Maria, grávida de 6 meses embarcaram em um navio rumo ao Brasil. Durante a viagem, Enrico adoeceu e morreu. O escorbuto dizimara quase um terço das pessoas no navio. Logo que chegaram ao Porto de Santos, no estado de São Paulo, a viúva Maria e seus companheiros de viagem - alguns parentes e outros conhecidos - dirigiram-se ao sul do país onde conterrâneos que vieram em momentos anteriores os receberiam e dariam trabalho e abrigo aos neo-imigrantes. Durante a viagem, Maria, devido a seu estado passava a maior parte do tempo deitada em uma das carroças da caravana. Maria nunca soube dizer exatamente qual foi o local, mas, entre São Paulo e Santa Catarina completaram-se seus dias e ela deu à luz um filho. Chamou-o Enrico, como o pai. Quando, dois anos depois em Porto Alegre, levou o menino a registro, o tabelião não concordou com o nome e o menino batizado como Enrico Vitiani II foi registrado como Henrique Vitiani. O primeiro. 22Out2007 | ( 2 ) comentários Abril de 1930
Henrique Vitiani faz 10 anos de idade. Sua mãe Maria parece ostentar muito mais do que os 32 anos que possui. Definitivamente o tempo não fez bem a ela. No dia que se segue a pequena festa na vila, com bolo e refrescos para os poucos convidados, o pequeno Rico começa a trabalhar na mesma vinícola onde a mãe o fazia desde a chegada ao Brasil. Colheita de uvas, moagem das uvas, limpeza dos tonéis de fermentação, muito trabalho pouco salário. Nessa época Henrique começa a perceber que apenas aquele salário não era o suficiente para o sustento seu e de sua mãe. Ele começa a entender também que os amigos que às vezes visitavam sua mãe e deixavam presentes para ele e para ela não eram pessoas boas. Com 10 anos de idade, Henrique comprometeu-se consigo a dar a sua mãe uma vida melhor. 22Out2007 | ( 2 ) comentários Agosto de 2006
Maria Clara acordou cedo naquele dia e logo percebeu que trabalharia sozinha. Cláudio não estava em casa. Boa parte da mudança fora encaixotada na véspera. Aí sim, Cláudio ajudou. De má vontade, mas ajudou. Ela escovou os dentes pensando em seu pai. Já fazia um ano que ele se fora e todas as manhãs seus pensamentos ainda se dirigiam para ele. Ela foi até a cozinha e preparou o café. Meio litro de água, como quando o pai era vivo. Ela tomaria apenas uma xícara pequena. Tudo o que sobrava, o pai bebia ainda de manhã. Agora sem ele, ia quase tudo para o ralo da pia. De fato, o pai, até dias antes de morrer, tinha total lucidez para cuidar da loja. Buscar os melhores fornecedores, pagar as contas, buscar crédito barato. Alguns gerentes de banco ainda ligavam procurando por ele, pois, sempre, em determinada época do ano ele fazia empréstimos no banco que operasse com as melhores taxas. Ela sentia-se só e incapaz. Sentia-se incompetente. Se Cláudio ao menos se interessasse pelos negócios. Se ele ao menos se importasse com o que estava acontecendo ele estaria ali com ela, preparando a mudança da cobertura de 4 quartos na Avenida Delfin Moreira no Leblon para o apartamento de 2 quartos na rua Prado Junior em Copacabana. Para Maria Clara aquela mudança representava a degradação que ela protagonizava ante o patrimônio da família. Deitou o café na xícara, comeu alguns biscoitos, lembrou-se que em São Paulo, onde ela foi viver quando casou, esses biscoitos chamam-se bolachas. Riu com a lembrança. Parou de rir quando lembrou-se de sua separação. E do sumiço do ex-marido, que fugiu para a Europa com todas as economias do casal, fazendo com que aos 40 anos ela voltasse a depender do velho pai. Perguntou-se em pensamento se Cláudio dormira em casa. Ela sabia que não. Ele tinha dezoito anos, e desde que ele fizera quinze ela somente dormia a sono solto quando ele chegava. Naquela noite ela não dormira a sono solto. Por volta das nove da manhã a equipe da mudança chegou. Eram 4 rapazes bastante fortes, mais um senhor com mais idade, responsável por montar e desmontar a mobília. Durante os trabalhos, recebeu a visita do Sr. Marcos Raposo, o novo proprietário da cobertura. Ele disse ter aparecido para prestar algum auxílio, mas ela sabia que ele queria certificar-se de que ela não levaria os móveis de cozinha conforme combinaram à época da venda do apartamento. Essa, para Maria Clara, foi mais uma grande humilhação. Quando o sr. Marcos deixou a residência a mudança já estava toda no caminhão. O amontoado de caixas organizara-se na no baú do veículo de uma forma tão milimetricamente perfeita que ela Maria Clara arrependeu-se de tentar coordenar o trabalho dos rapazes. Ela era uma mulher bela. Seus 47 anos não lhe haviam cobrado nenhum tributo. O mais moço e mais afoito dos rapazes não tirou os olhos de suas pernas durante toda a manhã, e isso divertiu Maria Clara. Ela pensou que aquele rapaz devia ter a idade de Cláudio. Neste momento o telefone tocou. Não era Cláudio, mas eram notícias dele. E não eram boas... 22Out2007 | ( 4 ) comentários Julho de 1944 - II Grande Guerra
O Sargento do Exército Brasileiro Henrique Vitiani, desembarca na Itália, a frente de um regimento da FEB (Força Expedicionária Brasileira). Era sua primeira visita ao país de seus pais. O país onde ele mesmo fora gerado. Seus pais saíram da Itália por causa de uma guerra que acabou com os sonhos de prosperidade de tantos italianos. Ele agora chegava a Itália para uma outra guerra. Pronto para o combate. Pensava em sua mãe, mas, pensava ainda mais em Júlia, sua namorada. Já planejavam o casamento e chegaram a conversar com a mãe da moça, D. Estela, uma vez que Júlia era órfã de pai. D. Estela concordara de pronto, afinal tudo o que uma viúva queria era um bom casamento para a filha. E Henrique era um “bom partido” apesar de ser filho de quem era. Os planos foram interrompidos pela convocação feita pelo Exército Brasileiro. Henrique, que era tido por seus colegas de farda como um jovem de muita visão, e ele já avisara aos seus comandados que provavelmente o Brasil tomaria parte na guerra por causa dos naufrágios de navios brasileiros atribuídos a torpedos alemães. E em julho de 1944, pouco antes da data marcada para o noivado, o Sargento Vitiani se uniu aos 25.300 homens comandados pelo General João Batista Mascarenhas de Morais, que com o aval pessoal do Presidente Getúlio Vargas embarcaram para a Itália. Em setembro de 1944 os brasileiros entraram em combate pela primeira vez. Estavam vinculados ao 4º Corpo do Exército Americano, sob as ordens do General Cristenberger. No Vale do Rio Serchio, ao norte da cidade de Pisa, o Sargento Henrique vislumbrou pela primeira vez os horrores de uma guerra. Mesmo com a campanha vitoriosa em Massaroa, Camaiore e Monte Prano, Henrique já não conseguia dormir ao lembrar do desespero e da agonia de tantos colegas de farda. Somente no seu pelotão foram quinze baixas nos quatro primeiros combates. Eram 55, tornaram-se 40. Em fevereiro de 1945, uma bala alemã no joelho fez com que Henrique não participasse da tomada de Monte Castelo. Quando já podia andar, retornou ao Brasil. Voltou para a sua Júlia, que, como havia prometido o esperava. Casaram-se em 1949, em Caxias do Sul. Um ano depois, Henrique vai ao Rio de Janeiro assistir à Copa do Mundo de Futebol. A Seleção Brasileira perde um título no Maracanã e a Capital da República ganha um cidadão. Henrique transferiu-se para a Capital valendo-se da ajuda dos conhecidos da FEB. Trouxe consigo sua mãe Maria. A mãe de Júlia não quis vir. Preferiu morrer em solo gaúcho. Em 1950 Henrique foi para a reserva no exército e abriu uma pequena livraria no bairro de Copacabana Em 1958, duas grandes alegrias. No dia em que a Seleção Brasileira ganhou sua primeira copa do mundo, nasceu a filha de Henrique e Júlia Vitiani. Deram a ela o nome de Maria Clara. Em dezembro 1959 uma desgraça dupla. Na pista do aeropoto Santos Dumont um Fokker da FAB chocou-se com um avião Viscont da Vasp, a bordo do qual estavam Dona Maria e Júlia, que pela primeira vez iriam de avião a São Paulo. A pequena Maria Clara, que iria na viagem, amanheceu febril, e por isso ficou na loja com Henrico. A tragédia resultou em 35 mortos, entre os quais estavam as duas senhoras. Foi o mais trágico acidente aéreo até então. 22Out2007 | ( 4 ) comentários Junho de 2005
No Hospital São Francisco de Assis, na Zona Norte do Rio de Janeiro o ancião sente dores por todo o corpo. As dores são tão fortes que a menor redução em sua intensidade gera um alívio imenso. As dores são agudas e fazem com que o ancião deseje a morte. Sua filha deixara o quarto a menos de duas horas, mas sentia-se só como nunca. Em combates mais difíceis desejara vencer para viver, e agora, viver não fazia muito sentido. Já vivera demais. Sentia que tivera uma boa vida. Conhecera o mundo, parte dele com seu primeiro amor, mas ela foi embora tão cedo. Visitou esta parte do mundo e conheceu o que faltava com seu outro grande amor... Sua filha... Para cuidar dela não casou de novo, mas até a mais alta velhice mantinha namoricos e flertes. Preocupava-se com a filha. Sentia que o futuro dela não era promissor, e ele sempre foi tido como um homem de visão. 22Out2007 | ( 5 ) comentários A CARTA
“Cláudio, Meu neto Cláudio... Não sei se você sabe... É provável que não saiba, mas eu sempre gostei de escrever, e agora, que percebo que estou bem no fim da vida, quero escrever para você as coisas que eu nunca consegui falar. Nem vem ao caso porquê eu não consegui, mas, como avô de um neto que não tem pai, acho que é minha obrigação te falar algumas coisas que não acho que vá aprender sozinho. Pedirei a sua mãe que entregue esta carta a você quando ela perceber que você precisaria de mim. E acho que isso vai acabar acontecendo... Filho, (eu sei que você não gosta que eu te chame assim) durante minha vida inteira não lembro de um dia em que eu não estivesse lutando... Quando criança, lutei contra a fome e a pobreza. Na guerra, lutei por meu país e para continuar vivo e assim voltar a ver os olhos de sua avó. Como eram lindos. De volta a casa lutei para dar a minha mãe a velhice que ela merecia e a para dar sua avó a melhor vida que pudesse ter. Mas aquele acidente abreviou os anos de ambas, e passei a lutar contra o sofrimento e contra a depressão. Lutei para sua mãe ser uma pessoa decente e dona de seu próprio destino. E ela é. Acho que tomou algumas atitudes erradas, mas, nunca fugiu às suas responsabilidades. E agora luto contra este câncer... Até os médicos dizem que a possibilidade de alguém descobrir um câncer aos 83 anos, como foi comigo, é muito rara. Normalmente a pessoa morre sem saber. Eu somente conheci você, de verdade, quando você tinha 10 anos. Na mesma época em que sua mãe voltou a morar comigo, depois que seu pai foi embora com a secretária deixando sua mãe completamente sem recursos. Sem condições de criar você. Ela me pediu socorro, eu dei. Eu ia mesmo precisar de alguém para me ajudar com as lojas. Afinal, já sou velho há muito tempo. Você nem imagina as humilhações que sua mãe foi obrigada a suportar para tentar manter aquele casamento, mas seu pai distanciou-se de tudo o que é correto. Eu recebi você e sua mãe em minha casa. Te forneci comida, escola, brinquedos. Eu quis suprir a falta que seu pai certamente faria em sua vida. Passados alguns meses, sua mãe me disse que sua escola preparava uma excursão a Disneylândia. Achei que seria uma oportunidade para nos aproximarmos e para sua mãe ficar sozinha e exorcizar os fantasmas daquele casamento. Procurei fazer que a viagem fosse um sonho para você, mas percebi que um sonho para um menino de 10 anos é justamente não ter nenhum velho por perto. Durante a viagem eu ouvi pela primeira vez uma música e me lembro dela todos os dias. Na verdade foi quando lembrei dessa música hoje que resolvi escrever esta carta. Ela dizia algo como “O SOL É O MESMO, DE UMA CERTA MANEIRA, MAS VOCÊ ESTÁ MAIS VELHO”. Acho que é de um tal Pink Floyd, é Roque. Você deve conhecer isso melhor do que eu. Depois que eu ouvi isso, Cláudio, eu percebi que temos muito pouco tempo na terra e devemos aproveitar cada segundo porque, se é verdade que não somos eternos também é verdade que o que fazemos de nossas vidas fica para sempre. Todas as noites sou assaltado por dores muito fortes, e o menor alívio dessas dores parece o céu. Acho que vou para o céu e sei que lá não sentirei mais dores, essa realidade me conforta. Mas, me tira a paz saber que mesmo tendo salvo a vida de tantos colegas de farda na Itália, mesmo tendo sido feliz ao lado da mulher que eu amei, eu não tive tempo para chegar ao coração do meu neto. Eu te amo demais, Cláudio. Eu precisava te dizer isto. Não sei como estará a tua vida quando você ler isto, mas quero que leia sabendo que, se não está bom, dá para mudar. Você com certeza tem muito tempo, mas não tem tempo a perder, afinal, O SOL DE HOJE É O MESMO DE ONTEM. VOCÊ JÁ NÃO É MAIS... 18 de julho de 2007 22Out2007 | ( 2 ) comentários Fevereiro de 2007
Ele terminou de ler a carta com os olhos rasos d´água. Já estivera preso antes. Da primeira vez foi por porte de drogas, no dia em que se mudou com sua mãe do Leblon para Copacabana. Dessa vez, tentativa de assalto. Já estivera preso antes, mas da outra vez sua mãe pagou a fiança. Desta vez ela não o fez. Ele sentiu ainda mais raiva dela por isso. Ela falou com ele, chorando muito, e ele lembrava de cada palavra: “Desta vez, filho, eu não vou poder te ajudar. E quem sabe passando algum tempo sozinho você não encontra tempo para ler isto...” . Entregou a ele a carta que o avô escrevera na véspera de sua morte e foi-se. Ele não sabia o que aconteceria dali para a frente, mas sabia o que não aconteceria. O Sol era o mesmo, mas, ele não seria mais. “Obrigado... Muito obrigado... Eu já entendi...” – Disse ele entre lágrimas. Para si... Para o seu avô... Talvez até para Deus... FIM 22Out2007 | ( 16 ) comentários | |||